As tretas internas do PSL mostram a treta em que o Brasil se enfiou

João Filho - El País Brasil | 14 de Dezembro de 2018
As tretas internas do PSL mostram a treta em que o Brasil se enfiou

QUANDO TEM UM CARA muito ruim de bola na pelada, dizemos que ninguém precisa marcá-lo porque “esse a natureza marca”. Ao que parece, a oposição não terá tanto trabalho para marcar os governistas do PSL. O partido reúne todas as condições para se estrepar sozinho. Uma conversa do grupo de WhatsApp “Bancada PSL 2019″, que reúne integrantes do partido, foi vazada para O Globo e mostra que o debate interno lembra muito mais um episódio da Escolinha do Professor Raimundo do que de uma sigla que elegeu o presidente e que representará uma das maiores bancadas da Câmara.

Os celulares pegaram fogo e o barraco varou a madrugada. Dois grandes duelos se estabeleceram. Começou com Joice Hasselmann x Major Olimpio e descambou para Joice Hasselmann x Eduardo Bolsonaro. Com muitas indiretas e intrigas infanto-juvenis, os embates se deram em torno da escolha da liderança do partido na Câmara, sempre tendo Joice como pivô.

A mulher mais votada do país está tentando impor na marra sua liderança sobre os colegas. Não é a primeira vez. Durante a campanha, Joice anunciou publicamente que seria candidata ao governo de São Paulo sem conversar com ninguém no partido. Nem o presidente estadual do PSL, Major Olimpio, foi consultado. Fulo da vida, o major chegou a gravar um vídeo dizendo que o PSL “não é a casa da Mãe Joana”. As conversas do WhatsApp mostram que o major está redondamente enganado. O PSL é a definição perfeita de Casa da Mãe Joana.

Mesmo sem nem ter assumido o mandato, já dá pra saber que atropelar aliados é uma marca de Joice. Quem a acompanha nas redes sociais sabe que ela já se comporta como se fosse a principal liderança do PSL. Boa parte do dia a dia da deputada eleita é transmitido ao vivo. Joice costuma falar para seus milhares de seguidores de dentro de um carro em movimento, contando os bastidores de reuniões feitas com gente muito importante. Sempre faz questão de reforçar sua proximidade com o presidente e é pouco discreta ao falar sobre suas atividades políticas. Joice se comporta muito mais como uma youtuber caçadora de likes do que como uma liderança partidária, uma posição que requer um mínimo de sobriedade e cautela.

O barraco estava armado. Os dois continuaram trocando farpas e tentavam encerrar a discussão com um “boa noite” passivo-agressivo. Mas a discussão prosseguia cada vez mais acalorada, até que Eduardo Bolsonaro, com sua autoridade hereditária, chegou com um textão para botar “ordem no galinheiro” — como afirmou um dos integrantes do grupo.

Com a sabedoria que se espera de um homem criado por Jair Bolsonaro, Eduardo tacou fogo no feno ao tentar organizar o galinheiro. Depois de chamar Joice de “sonsa” e comentar sobre sua “fama de louca”, o deputado mais votado da história do país ignorou o clima de briga e trairagem e simplesmente revelou ao grupo uma movimentação nos bastidores que seu pai gostaria de manter em segredo: “O PSL está fora das articulações? Estou fazendo o que com o líder do PR agora? Ocorre que eu não preciso e nem posso ficar falando aos quatro cantos o que ando fazendo por ordem do presidente. Se eu botar a cara publicamente, o Maia pode acelerar as pautas bombas do futuro governo”.

Mas a Família Bolsonaro se meteu em mais treta durante a semana. Enquanto Eduardo brigava no WhatsApp, Carlos decidiu iniciar um bate-boca com Julian Lemos, vice-presidente nacional do PSL. O vereador afirmou que Lemos “não é e nunca foi coordernador de Bolsonaro no Nordeste”, apesar de se apresentar assim. Julian Lemos, que já foi preso pela Maria da Penha e condenado por estelionato, respondeu com um vídeo no Instagram em que Jair Bolsonaro aparece afirmando que ele é o “nosso coordenador no Nordeste”. Desmascarou mais uma mentira de Carlos. Os dois continuaram discutindo no Instagram. O motivo exato da briga é desconhecido, mas deixa claro a bagunça e o amadorismo na disputa pelo poder dentro do bolsonarismo.

Cansado dos partidos tradicionais, o Brasil entregou a maior fatia do poder para um não-partido que nada tem a oferecer ao país. A máxima de Tiririca, “pior que tá não fica”, foi a maior fake news na qual caiu boa parte dos brasileiros. É claro que fica.

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Categoria : Política

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